sábado, 19 de julho de 2008

Sem pressa

Vejo a vida como um barco à vela
Sim, não sou de navegar, e nem tenho
Muito contato íntimo com o mar
Apesar de ser também dele
E pela beleza que vejo
Casaria-me com Iemanjá

Quero olhar, sentir e imaginar um sinal de terra
Ao mesmo tempo, quero continuar neste mar
Navegar, água, vento n’água, ondas

Lembro que na terra as ondas eram diferentes
Eram marolas que um dia foram um grande amor
Ondulações agradáveis, esperançosas, seqüências

Nunca foi um tombo. No máximo
Piruetas, apresentações do quanto posso
Ser maior que o pulsar do mar

Sou alto, gigante, acolhedor... até quebrar
Descartadas as porcelanas, sou o mar
Pronto pra surgir intenso quando menos se espera

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Perseverança

A mudança de vida está fielmente associada ao sofrimento. É necessário sofrer, com fé nas suas conseqüências, para atingir o patamar almejado. Continuar alçando vôos com sucesso é o que todos querem. Porém, chega o momento de se isolar, sentir a hidratação das lágrimas na pele, o aperto acolhedor no coração e a sensação mística de resquícios de sentimentos que preenche e esvazia o peito. Curtir, com a alegria em stand by, toda a tristeza que contorna o céu de nossa vida.

Percebi que uma das tarefas mais difíceis é fazer desaparecer aquilo que um dia prestou. Não é o mesmo que ‘cuspir no prato que comeu’. É, exatamente, fazer que evapore o grande bem que não faz mais bem. Ser um agente da ebulição das pequenas grandes coisas da vida que se tornaram apenas pequenas, e nocivas.

Em meio a toda essa fumaça desanimadora é que nasce a esperança. Por isso, é preciso ter força, garra. Reconhecer o que merecemos e o que não pode nos pertencer. Com um pensamento óbvio e simples, identificamos que não merecemos ter a estima atacada e vencida.

Sentimos ainda que merecemos a felicidade, a mesma de deitar numa pedra ao som da orquestra divina de uma cachoeira. Mesma felicidade, também, de fechar os olhos e sentir o toque carinhoso da pessoa amada. Igual a de ver uma criança gargalhando ou de saber que uma sua está prestes a nascer.

Ao saber de tudo que a vida ainda tem a me ofertar, começo a me limpar da tristeza. Banho-me em algum sorriso grátis, porém riquíssimo, que desabrocha em qualquer canto desta extensão de terra. Aos poucos, vai saindo da alma todo o peso, todos os fragmentos de vida antiga, que não têm razão de nos pertencer mais.

Olho o céu e abro as asas. Quero sentir a vida no rosto, como se eu enfrentasse uma grande ventania. Quero novas turbulências e marasmos. Quero nuvens novas e tudo o que há de novo. Sei que para trás ficou parte de mim. No entanto, estou certo de que o que ficou para trás foi o que não passou na peneira do meu coração. Só me resta, agora, voar.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Cantando o perdão

Toda a luz está retida na vontade dela
As cores só se mostram mediante sua intenção
Assim, como toda a vida e tudo

Só ela não sabe que os meus tropeços não são
minha culpa. Também não é minha culpa
Os caminhos errados que, às vezes, sigo

Se um cigarro acendo é pela falta de luz
Se encho a alma de álcool é pela falta de luz
Se vagueio pela escuridão é por estar à procura da manhã

Ela dorme, enquanto estendo as mãos para conhecermos
O mundo. Ela corre, quando combino com Deus uma
Vida melhor. Ela morre, logo após eu renovar as esperanças

Eu a olho. Tento esquecer.
Mas, seus seios não deixam.
Sua pele não deixa.

Teu vaso úmido, onde mato minha sede
Teus olhos únicos, que revelam nosso futuro
Teus sonhos, os quais assisto em meu sono

Tropeço, em suas pernas
Mesmo com tantas outras existentes
No fundo ela sabe, que são as suas que me sustentam

São seus lábios
Seu corpo, seu espírito
Encarnados no meu destino

Minha vida
Na luz que você me oculta
No perdão que nosso amor perpetua

sexta-feira, 20 de junho de 2008

No fundo do coração humano


Pobres extras- terrestres

desconhecem o amor suburbano da terra

procuram o que nunca viram

a paz, o amor

A princesa de todos os sentimentos

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A invenção da pura alegria

Ao invés de seguir o seu padrão, puxão de orelha ortodoxo
Preferi quebrar e reinventar os conceitos
Livrando a liberdade das ações cínicas da falsidade

Vejo-te hoje ainda repousada em braços aleives
Enfeitada por todo fausto, flanqueada pelos seres
Aceitos em todas as rodas anti-sociais, diante de toda periferia

Suas mentes brilhantes, sorrisos insanos
Alegria nem vista no sobradinho onde carne
De animais enfrenta a inquisição

Alegria, alegria. Desfiles, desfiles
E minha alma vaga feliz pelas trilhas
E enxerga a esperança no choro sincero

Que passe o bloco do não-toque-em-mim
Vou com o bloco diário do vamos-nós
Sem as viseiras do padrão, conheço o semblante da felicidade

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Olhar divino

Ando em paz.
Penso em paz.
Ajo em paz.
Calo-me em paz.

Sei que jaz a guerra tola.
Que de uma papoula expande o pensamento,
Para não ter que jorrar lágrimas à toa
no solo infértil, como um sangramento

Tenho os joelhos no chão
Até quando vôo alto por céus desconhecidos
Caminho em forma de devoção
Manifestando meus sentimentos agradecidos

Peço a Ti a libertação
De tudo e de quem me acorrenta
Vejo em Teus olhos a força do Leão
E com seu rugir o inimigo se afugenta.

Nem sabe a ciência, a sustentação da fé
Em meio ao infinito diz ver Tua vigília
No exercício da vida não imagina como é

Não se preocupa com a cura de Emília
Quando sem recheio o bolso de Bernabé
Morte em paz, aguardando a reunião da família

Rezo em paz
Peço em paz
Agradeço em paz
A benção!






Quando um rei perde o trono

Fui obrigado a suspender a caça. Não acreditava no que via. Debrucei-me ao chão, em meio ao mato. Não queria alertar a natureza móvel com a minha presença. Assim como as plantas tremulavam com o vento, minha juba parecia nuvens impacientes. Meu peito era um caldeirão efervescente. Minhas patas sentiam um tremor de terra. A única coisa imóvel em mim era os olhos.


Desde jovem já surpreendia todos os meus inimigos. Invejosos. Por não reconhecerem minha majestade, hoje, são assumidamente minhas presas fáceis. Não importa tamanho e por qual topografia acidentada eles correm. Ofereço 30 metros de distância. Não perco viagem. Desfaço a vida com o que sustenta minhas garras. Escorre sangue entre meus dentes. Vejo pavor nos olhos daqueles que, por mim, não foram escolhidos.


Uma hora e meia de sono. Margeando a luz da lua, saí à procura. Parecia um surto. É sério. Um rei vagando em meio ao próprio desgoverno. Mantive a cabeça erguida, para não cair no sem fim de minha inconsciência.


Os primeiros bichos foram saindo de suas manjadas tocas. Ameacei acometer. Fui travado. Não era o que eu procurava. Outros animais apareceram. Eram grandes, saborosos. Tinha que ser aqueles que eu queria. O cheiro deles invadiu meu instinto, que nem se atiçou. Eles se distanciaram e sumiram do horizonte de meus olhos.


Com saudade da terra, o sol tomou o lugar da lua. E me flagrou andando, com um suor jamais causado pelos leves raios matinais. A insanidade rotulou meu semblante. Chega! É Deus no céu; e eu na selva! Um rei não pode ter dúvidas, muito menos indefinições diante do inexistente. Resolvi reduzir a população local.


Foi quando vi algo anormal. Eu acabara de rasgar um filhote de búfalo. A poeira baixou. Caminhei lentamente, sentei-me. Não houve a reciprocidade de olhar. Completamente ignorado. Senti sede, fome, receio, baque, uma abstinência viril de coragem. Sabia que retornaria a vagar sozinho, a demarcar território. Mas, só quando fosse libertado das garras daquela formosa leoa.